Fazia o calor de costume, numa quinta-feira de costume, na capital pernambucana. No bairro de Casa Forte, zona norte do Recife, uma casinha de alvenaria pintada de um azul céu enfeita a rua Jader Andrade. O aroma que saía de lá era capaz de fazer até o transeunte mais apressado — com a atenção enfurnada numa pilha de afazeres sem fim — esquecer para onde estava indo e ser tomado por aquele prazer tão familiar que faz a boca salivar.
A fome não era mais da pressa. Era da comida caseira que, ali, naquela construção simples, se fazia mais saborosa do que qualquer outra. E era ali que ficava o restaurante tradicionalmente coreano mais antigo do Brasil, o Burgogui.
Adentro, estava a proprietária Helena Choi, de 57 anos, domando fogões que estavam a todo vapor. Ia de um lado para o outro, dando instruções aos chefes de cozinha que, mesmo experientes, estavam atentos a tudo que ela dizia. “Primeiro, a gente doura os mandus — bolinho coreano recheado com carne e legumes, semelhante a um pastel — e depois cozinha eles no vapor, para manter o recheio suculento”, sinaliza. Logo após, se dirige a bancada e começa a fatiar, com um capricho invejável, pedaços de um contrafilé bovino. Feito isso, Helena pega um recipiente e começa a mexer com as mãos a carne, antes marinada em molho de soja, com alho picado e sementes de gergelim. Aquela era a base do Burgogui, churrasco de contrafilé coreano. Um sorriso escapa de seus lábios. Cozinhar aquele prato a fazia lembrar dos calorosos almoços de família no domingo, quando criança, e de seu pai, Kong Pil Choi, que fundara o restaurante em meados de 2001.
Antes mesmo de entender quem era, ou de ter idade o bastante para brincar de futuro, Kong Pil Choi vira, ainda muito menino, o rosto da guerra. Ele e Soon Ja Choi — a garotinha tímida que, mais para frente, viria a crescer e tornar-se sua esposa — nasceram em Shenyang, capital da província de Liaoning, no nordeste da China. Na época, os pais coreanos de Kong e os de Soon tiveram de se refugiar no país para fugir da invasão japonesa ocorrida entre os anos de 1910 e 1945, antes mesmo da Coreia deixar de ser uma, para se tornar duas nações independentes. Cessado os horrores da Segunda Guerra Mundial, os aliados — Inglaterra, França, Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) — desfrutavam, enfim, da paz e das benesses da vitória. O mesmo, no entanto, como sela a própria história, não poderia ser dito para os países que estavam do outro lado do front.
A Coreia, que antes fora colônia japonesa, tivera o mesmo destino da Alemanha pós-guerra. A porção sul do país passava, neste momento, a ser controlada pelos Estados Unidos — que espalhava, com afinco, a ideologia capitalista na região — e a porção norte, da União Soviética. Kong e Soon, que chegaram ao país depois dele ser liberto do Japão — ele, aos 5 anos de idade, e ela, aos 3 —, foram separados desta vez não por um muro, mas por uma linha imaginária que ceifava o território ao meio, o Paralelo 38 N, e forçava milhões de famílias a cortar laços e, da noite para o dia, se tornarem inimigas declaradas.
Enquanto Kong Pil Choi se estabeleceu com a família em Seul — que, na época, estava prestes a se tornar a capital da Coreia do Sul —, Soon Ja Choi e seus pais se instalaram em Pyongyang. Soon, ainda pequenina, viveu por três anos do lado norte da fronteira no regime de Kim II-sung, avô do atual líder do país, Kim Jong-Un. E foi neste mesmo período que a sua família, mesmo com um temor que consumia até os ossos, decidiu cruzar o paralelo em direção ao sul. Assim o fizeram: numa noite sem lua, saíram todos de uma vez, apenas com as roupas do corpo.
Durante a fuga, Soon e a mãe acabaram sendo capturadas por militares e enquanto estavam sendo levadas a um galpão, Soon fingiu sentir dores no estômago e foi acompanhada, junto da mais velha, a um matagal nas proximidades. Sem demora, as duas correram, mata adentro, sem olhar para trás — temendo que, se assim o fizessem, acabassem por encarar a própria morte. Sucessivos foram os disparos. Felizmente, as duas saíram ilesas. Mais tarde, Soon conseguiu se encontrar com o pai e o irmão, e os quatro conseguiram, enfim, atravessar a fronteira.
O temor havia cessado. Até a eclosão da Guerra da Coréia, em junho de 1950. Na época, Kong Pil-Choi tinha 10 anos e Soon, 8. O casal ainda não se conhecia, mas compartilharam da mesma memória: era um domingo de manhã quando as casas de Seul eram, pouco a pouco, engolidas pelas chamas. Gritos. Passos apressados. Corpos empilhados feito muros e estendidos, onde mal conseguia ver o chão — agora, tingido de um vermelho vivo. Meses de ofensivas. E Kong Pil Choi, ainda menino, teve de ir para as frentes de batalha. O sul-coreano de 11 anos carregava, ainda franzino, pesadas balas de canhão para a artilharia. Sentira o cheiro da pólvora, até hoje, impregnado no corpo e na mente.
Passaram-se sete anos. O Armistício de Panmunjon foi assinado e a guerra, ao menos nos papéis diplomáticos, chegara ao fim. Tempos depois, numa igreja evangélica de Seul, os destinos de Kong e Soon, enfim, se cruzaram. Não tardou para que começassem a namorar — ele tinha 20 anos e ela, 18 — e em 1963, casaram-se numa cerimônia discreta. No ano seguinte, tiveram seu primeiro filho, Pedro, e desembarcaram, com um punhado de incertezas nas malas, em solo brasileiro, em 1965. Kong era jornalista e havia sido transferido ao país para trabalhar como correspondente internacional do Jung-Ang Ilbo (Diario Central da Coreia), jornal e emissora de renome de Seul.
Em quatro anos de estada, a família Choi passara por Brasília — e viram, pouco a pouco, a capital de Oscar Niemeyer ser povoada por tons de branco puro, construções megalomaníacas e seus pouco mais de 500 mil habitantes, na época —, pelo Rio de Janeiro e São Paulo, onde nascera sua filha, Helena. Como esperado, Kong Pil-Choi também não escapara do cerco armado da ditadura e foi detido pelos fardados do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) por escrever sobre o governo militar, a vida dos generais e a Igreja Católica. Felizmente, saiu ileso.
E quando estava prestes a retornar à Seul — já que seu “mandato” no Brasil havia acabado —, conheceu o famoso economista Celso Furtado e o entrevistou para uma reportagem especial sobre a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). De lá, percorreu nove estados do Nordeste, até chegar à sede da Sudene, na terra “de encantos mil” — como era descrito o Recife pelos olhos do rei do brega romântico, Reginaldo Rossi.
Ao passo em que caminhava pela areia fofa da Orla de Boa Viagem; passeava pelas pontes e monumentos históricos do centro da cidade; E proseava com os moradores daquela cidade calorosa de clima e de espírito, Kong Pil Choi sentira o coração frevar, como uma criança que vira, pela primeira vez, os bonecos gigantes de Olinda cortando caminho pela multidão embriagada de alegria, com serpentinas nas mãos e nas curvas do sorriso. Não tinha jeito: era amor. Que coisas grandes — e miúdas, e singelas, e irreverentes na mesma medida — fazem aqueles que estão repletos de amor.
E a de um Kong Pil Choi, já bem crescido, foi pedir demissão do jornal e pousar, de vez, nas terras do Recife, e abrir uma pequena comedoria coreana na zona norte da capital pernambucana. Afinal, mesmo para um homem tão peregrino, existem naturezas pelas quais terra nenhuma é capaz de tomar. Em meio à churrascarias opulentas e franquias de restaurantes capitaneadas pelas mesmas famílias de prestígio, ele vende ensopados encorpados, vegetais fermentados e apimentados, bem como tiras de filé servidas numa pequena grelha. Os acompanhamentos, bem coloridos e dispostos de maneira circular, sugerem um ritual a ser seguido. E são, acima de tudo, uma celebração: das farturas que são colhidas da terra e das vidas que resistiram à fúria da guerra. E aqui, neste porto que virou cidade, ele faz morada, com sua família, até hoje.
Agora, com os fios já grisalhos pelo tempo, Kong Pil Choi, de 85 anos, segue imortalizando, na carne e na memória, uma das histórias de vida mais fascinantes do Recife. Ele, maestro de corais juvenis, médico oriental e professor da Escola de Língua Coreana de Recife — dirigida pelo Consulado da Coreia do Sul —, é, sobretudo, um pai orgulhoso de seus rebentos e um avô amoroso. Para o ex-vereador Romildo Gomes Filho e a Câmara Municipal da metrópole pernambucana, o Sr. Kong é o “cidadão do Recife” — título estampado, orgulhosamente, nas paredes do Burgogui. Mas para a Helena menina e a Helena com dois filhos já crescidos, Kong Pil Choi é, para sempre, o pai que dera a volta no mundo pelos filhos e que é mestre em tirar espinhas de peixe com hashi.
— Helena, tem uma garota te procurando. Ela disse que marcou com você uma entrevista para hoje a tarde”. Helena, que estava para dar os toques finais nos pedidos, vira-se para Eli, seu marido. “Já estou indo”, ela responde.
Tempos depois, ela sai da cozinha, satisfeita com seu trabalho, e se dirige à mesa onde estava uma jovem franzina, com as mãos sujas e a boca cheia de comida — porque comida coreana se come com as mãos e de boca cheia, para mostrar satisfação. Ao vê-la, a menina limpa as mãos de forma desajeitada e sorri. “Fique à vontade”, Helena diz e se senta. Pratos e copos entram e saem da mesa.
— Então, Helena. Antes de falar de você, que é da segunda geração de imigrantes da família Choi, queria que me contasse um pouco da história de seu pai.
Helena sorri, com os lábios e com as pequenas linhas de seu rosto.
— É uma longa história… — ela olha para a mesa ao lado, que tinha uma família grande e barulhenta, reunida. Todos estavam rindo, com a boca cheia de macarrão de arroz. Helena sorri e volta a encarar a jovem de olhos atentos — ‘Tá com tempo para ouvir?
