Amanheço — desde muito menina — de estômago vazio. É daqueles ritos que não consigo largar e nunca soube ao certo o porquê. Minhas manhãs eram feitas de um jejum sagrado e silencioso — ainda que, à época, não fosse muito religiosa. Eram feitas de um jejum que, por razões maternais, tirava o apetite de dona Kika. “Toma, pelo menos, um copo de iogurte, menina! Já te disse que saco vazio não para em pé” , advertia a mais velha, bebericando sua boa e velha xícara de café com leite. Como em boa parte das famílias nordestinas, dona Kika — ou um ‘mainha’, bem nasal, como carinhosamente costumo chamar — é uma espécie de padroeira na mesa. Pois neste “sertão que vai virar mar” — e neste “mar que vai virar sertão”, nas palavras de Glauber Rocha —, mais sagrado que o pão nosso de cada dia, só a vigília protetora de mãe. da minha mãe.
Não me entenda mal: sempre fui boa de garfo e me orgulhava de ter, no almoço, entre as crianças da minha idade, o prato mais colorido. Mas sempre fui um bicho mais da noite, apesar de ter vivido — e viver — boa parte da minha vida num fuso matinal. Aos vinte e poucos anos, isso não é diferente. Exceto que, hoje, a vida acadêmica num caos urbano me tornou amante das madrugadas. E de um energético saborizado quando a graduação pede mais de mim.
Saio de casa, pego o ônibus num fim de tarde e tomo meu destino bem na nascente da Avenida Conde da Boa Vista. Naquele mar revolto de pedestres e ambulantes, ouço — de canto de ouvido — um carroceiro de lanches cantarolar o ponto de Iemanjá, regente das ondas: “Ô, Minha Mãe Iemanjá / Hoje eu vou cantar / Vou louvar na areia / Em lua cheia a mãe Iemanjá”. De súbito, me vi na praia de Itamaracá. O vestido trançado arrastava, enquanto eu cravava os dedos dos pés na areia molhada. Sentira o vento. O cheiro de sal. O tempo. Naquele azul profundo, pensava na minha fome crônica de viver. De partir o horizonte ao meio e provar de todos os caminhos que eu quisesse seguir. Eu queria comer todos os figos que a vida me oferecesse, porque não suporto a ideia de vê-los apodrecer. De assisti-los perder o sumo por ter medo demais.

‘Latão 3 é 10’. Rômulo Jackson/Reprodução
Medo de mastigar, sem querer, o amargo dos caroços. Medo de comer e não gostar. Medo de comer tanto de um único figo e não ser capaz de consumir outra coisa pelo resto da vida. Um temor que Clarice Lispector tivera, muito nova, quando mastigou um chiclete pela primeira vez: o [medo] da eternidade. A sina de quem vive — não por escolha — um dia de cada vez num mundo sempre com pressa. A sina de quem degusta, na santa ceia, só do pão, pelo temor de não saciar essa minha sede de mundo com um só gole de vinho.
Mas antes que eu seja levada pela correnteza, um cheiro familiar me resgata. E um sorriso nasce no meu rosto antes que eu sequer perceba. Me viro, de costas para aquela imensidão salgada, e encontro minha família, sentada numa mesa à beira-mar, com uma porção generosa de guaiamuns bem curados. E por obra do acaso — ou do destino, por que não? —, como boa filha de mangue, sou apaixonada por frutos do mar.
Me junto a eles na mesa. Agarro um dos guaiamuns e, sem demora, começo a sugar todo o seu sabor pelas patas. Gosto de pensar que, antes mesmo de me entender como gente, eu já sabia comer com muita maestria todo tipo de crustáceo. Até me orgulho de não desperdiçar nada da carne suculenta ou cortar o céu da boca.
Essa minha sabedoria, que vem sendo aprimorada com o passar dos anos, e esse meu gosto pelo mar e seus frutos, aprendi com meu pai. Ele, por sua vez, aprendeu com a minha avó, filha de pais ribeirinhos e que faziam da pesca o árduo sustento de toda uma vida a três.
E é por uma vida desaguar na outra que, hoje, eu sei identificar quando o pescado é fresco; Diferenciar, só de experimentar, a carne de um guaiamum, de um caranguejo; Que fêmeas de crustáceos costumam ser maiores que os machos — e, por conseguinte, serem mais saborosas; O ponto exato de grelhar um camarão, e tantos outros saberes que vem de uma mesma linhagem cabocla e enxerida na cozinha. Daquelas genéticas bem metidas, por sermos ungidos em azeite de dendê e torrar no sol que nem calda de açúcar.
E antes que me demorasse mais naquele sonho paradisíaco, eu desperto.
Uma buzina furiosa e insistente me faz voltar aos eixos. Aperto o passo e, em pouco tempo de caminhada, chego à Universidade. Transito, com pressa, pela infinidade de barraquinhas e estabelecimentos na rua do lazer, depois de um dia difícil. “Tenho fome de que, hoje?”, volta e meia, me pergunto.

‘A praia é melhor pra ficar’. Rômulo Jackson/Reprodução
Volta e meia, também, me pego respondendo de forma muito passional: Tenho fome de tudo, oras. Mas fome mesmo tenho é do brigadeiro quente da minha mãe, que vinha sempre desavisado em uma madrugada de filmes. Da sopa de feijão de Dadá — a mãe que sangue algum seria capaz de apagar; Tenho fome dos tabletes de doce de leite que minha avó paterna, com tanto carinho, me presenteava;
Da salada de bacalhau da minha avó por parte de mãe servida em todo Natal; do macarrão com molho de tomate da minha irmã e do camarão ao alho e óleo do meu pai que são, sem sombra de dúvidas, os melhores do mundo.
Tenho fome é de um futuro melhor e por essa razão tenho me virado — à pernambucana — para dar conta de tudo, todos os dias. Sorri, como quem tem — no sangue e no céu da boca — uma constelação de histórias.
Aprendi com os meus que o que se come — com os olhos, com a boca —, se devora, também, com a alma; Que a gente tem de sugar o tutano da vida e da fruta, roer até o caroço para assim honrarmos essas pequenas porções de eternidade; À cozinhar, de mãos vazias, e fazer pratos cheios de sabor, mesmo com as sobras dormidas de um dia pro outro; A nutrir-se de amor: nas mesas em que nos servimos; nos ambientes que frequentamos; nas vidas que atravessamos e nas outras tantas que nos atravessam — posto que é umami tudo aquilo que se faz eterno nos sentidos. Nesta carne que é tão nossa quanto daqueles que, munidos de fé e fervura, viveram uma vida inteira antes de nós.
